Por que Elizabeth 2ª foi atacada pelo rock dos Sex Pistols
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A rainha Elizabeth 2ª, morta nesta quinta-feira (8), não foi apenas um símbolo cultural da monarquia, estampado em chaveiros e canecas de suvenir. Para o rock britânico, ela foi alvo da raiva, da depressão e do descontentamento dos jovens com a vida cotidiana da Inglaterra dos anos 1970.
Para as bandas que surgiram naquelas cidades industriais de tempo enevoado, Elizabeth 2º representava tudo o que precisaria ser destruído. Ela era vista como a personificação de uma instituição ultrapassada e tirânica.
As críticas, no entanto, não eram tão pessoais assim. Embora tenha surgido primeiro nos Estados Unidos, o punk tomou contornos definidos na Inglaterra, sendo, por definição, um movimento iconoclasta. Com tanta ira, qualquer monarca seria visto como inimigo dos Buzzcoks ou do Clash.
Afinal, era a uma época em que a Grã-Bretanha vivia um pesadelo econômico. A libra valia pouco, e os gastos públicos levaram a uma inflação de dois dígitos. Em 1976, o governo trabalhista chegou a pedir empréstimos ao Fundo Monetário Internacional, o FMI, na tentativa de sanar as dívidas. Como pano de fundo, a economia tentava se recuperar da desregulamentação do sistema monetário internacional e de dois choques do petróleo.
Nesse contexto, a juventude britânica sofria com o desemprego, fome e frio. Em 1975, Johnny Rooten, Steve Jones, Paul Cook e Glen Matlock se juntaram para formar o Sex Pistols. A banda teria de durar mesmo só dois anos, porque seu único álbum de estúdio "Never Mind The Bollocks, Here?s The Sex Pistols", de 1977, foi uma descarga revoltosa contra o moralismo do sistema político.
Em um ataque direto à rainha, a faixa "God Save The Queen" foi lançada como segundo single do álbum, perto da data do jubileu de Elizabeth 2ª. "Deus Salve a Rainha/ O regime fascista/ Eles te fizeram de idiota", diziam os primeiros versos da canção. Nessa descarga colérica, fascismo e monarquia eram, para os jovens revoltados, dois regimes tiranos, ambos formados por opressores, que impediam a liberdade de comportamento e a independência das novas gerações.
"God Save The Queen" é punk em estado bruto. Violência e beleza estão entrelaçadas em um som cru, que se forma em apenas quatro acordes. "Não há futuro/ Nos sonhos da Inglaterra/ Não deixe que digam o que você quer/ Não deixe que digam o que você precisa", cantava Rooten, com a voz esganiçada.
Ainda que tenha alcançado as paradas de sucesso, a música provocou um escândalo no país, enfurecendo a própria rainha. A BBC se negou a reproduzir a música em todos os meios de comunicação. Do mesmo modo, algumas das principais varejistas do Reino Unido, como Woolworths e WHSmith, baniram o disco de suas prateleiras.
No feriado que celebrava o jubileu, a banda fez um show num barco chamado Rainha Elizabeth, que flutuava no rio Tamisa. Nele, o grupo entoou a canção polêmica. O show foi interrompido pela polícia, que prendeu onze pessoas, incluindo o lendário produtor do punk, Malcolm McLaren. Em maio deste ano, a faixa foi relançada, na ocasião do jubileu de platina da monarca.
Ao longo do tempo, o rock se tornou o termômetro da insatisfação do povo britânico com a família real. O gênero musical foi para a nobreza uma crítica incômoda, sempre à espreita nos momentos de baixa popularidade. Se as décadas transformaram Elizabeth 2ª numa monarca fofa, a banda de pós-punk The Smiths reavivou a iconoclastia nos anos 1980.
Em 1986, Morrissey, Johnny Marr, Andy Rourke e Mike Joyce lançaram "The Queen Is Dead", ou a rainha está morta, terceiro álbum de estúdio da banda. A canção de mesmo nome abre o disco, mostrando também uma mudança estética em relação à primeira geração punk. Na Inglaterra ultraliberal da primeira-ministra Margaret Thatcher, a raiva deu lugar ao desalento. "A rainha está morta, garotos/ A vida é muito longa quando se está sozinho", cantava Morrisey.
Sob o aspecto musical, "The Queen Is Dead" tem bateria de pulso firme, marcando os compassos. Sua melodia, porém, se espalha no tempo, como numa balada soturna. A letra recorre a mais imagens do que o hit dos Sex Pistols, lembrando uma Inglaterra romântica, de poetas como William Blake e John Keats. Os solos de guitarra de Marr e a voz grave de Morrissey reafirmam a solidão do eu lírico e desvelam um Reino Unido que já não se sentia contemplado pela coroa.
Em momentos de turbulências políticas, Sex Pistols e Smiths não alvejaram o Parlamento na mesma medida. Para eles, era necessário antes dessacralizar a figura de Elizabeth 2ª, um resquício de uma ordem que já não existia. Nesse vazio, eles falavam mal, mas falavam dela.